Como boa saudosista, tenho que relembrar a sensação de colocar no papel ou na tela os meus sentimentos quando eu me sentia sem voz, sem espaço no mundo para dizer o que estava aqui na minha cabeça. O papel sempre foi um confidente, um amigo íntimo; passava horas contando minhas aflições. Sim, eu só o procurava nos momentos mais difíceis. Parecia que na alegria não tinha graça contar para ele. Eu podia sair cantando por aí, no chuveiro ou sozinha dentro do meu quarto. Eu podia dançar e olhar para o dia lindo que fazia lá fora. Mas, na tristeza, eu precisava tirar aquele gosto amargo de mim, precisava transferir a minha ferida para outro lugar, e o papel sempre foi a minha oferenda no ritual de sacrifício diante da vida. Eu precisava concretizar meu sofrimento e olhar para ele. Depois fazer dele algo bonito e tentar esquecê-lo. Acho que esse era meu propósito ao escrever quando adolescente e, talvez, devo ao papel e minha relação com ele a capacidade de refletir.
Daí eu cresci e coloquei na minha cabeça que só poderia voltar a procurar este espaço, ou um bom bloco de papel, quando tivesse algo diferente e novo a dizer. E por quanto tempo me senti mal em estabelecer esta regra para mim mesma. Como foi difícil ficar longe, quantas vezes quis vir aqui e desabafar tudo, toda a dor e angústia destes anos que se passaram. Ficar longe daqui se tornou sufocante, novamente me senti indigna de ter voz, de ser como todo mundo.
Acho que acabei descobrindo que aqui é um lugar meu, onde mereço ser eu mesma, sem autocensura, com ou sem novidades, original ou convencional, medíocre ou excelente. Aqui é onde me mostro sem máscaras, o meu porto seguro. É na escrita que melhor me expresso e onde eu realmente me descubro.
Como é bom voltar!
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